A falta que ama
 
 
Entre areia, sol e grama
o que se esquiva se dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não há.

Está coberto de terra,
forrado de esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda cimento.

A transparência da hora
corrói ângulos obscuros:
cantiga que não implora
nem ri, patinando muros.

Já nem se escuta a poeira
que o gesto espalha no chão.
A vida conta-se inteira,
em letras de conclusão.

Por que é que revoa à toa
o pensamento, na luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem pus?

O inseto petrificado
na concha ardente do dia
une o tédio do passado
a uma futura energia.

No solo vira semente?
Vai tudo recomeçar?
É falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar?
 
Autor: Carlos Drummond de Andrade
» Ações
            

» Dados sobre o Poema
Título A falta que ama
Autor Carlos Drummond de Andrade
Visitado 156738 vezes
Enviado 533 vezes



» Enviar este Poema
 
Seu nome
Seu e-mail
Nome do Destinatário
E-mail do Destinatário
Escreva uma Mensagem
  
 

© Copyright 1998 - 2017 Poemas de Amor. Todos os direitos reservados.